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As (quase nenhuma) vantagens do perfeccionismo

18 Sep 2019

 

 

É uma piada comum sobre entrevistas de emprego o candidato responder que é perfeccionista quando perguntam o seu maior defeito. A lógica está na ideia de que ser perfeccionista é, ao mesmo tempo, um defeito e uma qualidade.

 

Como mencionei no primeiro texto dessa série (aqui), o perfeccionismo não é uma característica da personalidade, mas um padrão de comportamento. Portanto, não faz sentido julgá-lo como um defeito ou qualidade, mas podemos analisá-lo em termos das vantagens e desvantagens que ele traz para a nossa vida.

 

A maioria dos perfeccionistas tem um certo apego ao próprio perfeccionismo, pois tende a achar que ele traz mais benefícios do que realmente traz.

 

“Eu não seria nada ou não teria conquistado nada se não fosse assim”, “Falta muito ainda, mas só sou o que sou ou tenho o que tenho, porque sou assim”, ou ainda, “Eu já sou preguiçoso, não conquistei muita coisa na vida, imagina se eu relaxasse na autocobrança?”.

 

 

 

O apego ao perfeccionismo

 

Pessoas perfeccionistas costumam atribuir suas conquistas ao rigor com que se cobram e se punem quando não estão atingindo os próprios padrões. Elas partem do princípio de que só é possível ser disciplinado, focado, dedicado e atingir resultados excelentes se o chicotinho interno da autocrítica estiver ali à mostra, pronto para atacar ao menor sinal de um desvio do caminho.

 

Se você leu o primeiro texto dessa série (aqui), acho que ficou bastante claro que, as principais consequências do perfeccionismo são, na verdade, insatisfação, cansaço, frustração e autocrítica.

 

 

 

O perfeccionismo nos aprisiona num ciclo de insatisfação

 

Se atingimos a meta, “é porque ela não era tão difícil”. Se não atingimos a meta, “é porque somos incompetentes”. Se não tentamos atingir a meta, “é porque não somos dignos nem do nosso próprio perfeccionismo”.

 

Ou seja, na maior parte do tempo, o perfeccionista se sente insatisfeito e frustrado consigo mesmo. Está cansado do seu esforço ou fugindo do cansaço, procrastinando, o que o deixa ainda mais insatisfeito e frustrado.

 

 

Então o perfeccionismo não tem vantagens? 

 

Tem sim! Por mais estranho que pareça, esse ciclo de autocobrança acentuada é uma estratégia de autoproteção e promove uma sensação de alívio temporário.

 

É mais ou menos assim: 

 

Geralmente, pessoas com comportamento perfeccionista, são assoladas por pensamentos de que são uma grande fraude. No fundo elas acreditam ser inúteis, incapazes, incompetentes e, portanto, indignas de amor e admiração. Esses pensamentos são como uma crença, por isso é bem difícil refutá-los ou ignorá-los. Eles vêm carregados de muito sofrimento. 

 

Manter metas altamente demandantes de esforço, dá a elas uma sensação de que, ao menos no plano das ideias, são capazes, competentes e admiráveis. "Eu posso não estar fazendo nada agora, mas quando eu fizer vai ficar muito bom". "Não fiz ainda porque não me contento com pouco". "Assim que eu conseguir alcançar essa meta, serei amada ou admirada" .

 

E isso traz um baita alívio para as emoções desconfortáveis! Dá uma certa esperança. É como se a pessoa pudesse vislumbrar um mundo, um momento, uma situação em que ela não se sentirá uma grande enganação e se sentirá digna de sua existência.

 

Não dá pra menosprezar a importância desse alívio na hora em que o sofrimento aperta. 

 

O problema, porém, é que essa sensação dura pouco tempo e, como consequência, deixa um gosto ainda mais amargo, já que o mecanismo pelo qual o perfeccionismo atua acaba por confirmar aqueles pensamentos de incapacidade, incompetência e inutilidade.

 

Ou seja, a vantagem do perfeccionismo está no plano das ideias. É uma suposição de que "se as metas fossem alcançadas, tudo seria bem melhor". As desvantagens, por outro lado, estão nas consequências reais que estar quase sempre aquém das próprias metas traz para a vida.

 

Contudo, o plano das ideias costuma ser tão poderoso, que é muito difícil para as pessoas perfeccionistas acreditarem que elas poderiam ser mais focadas, determinadas, eficazes e eficientes se não fossem tão rígidas consigo mesmas.

 

Mas o único jeito de saber isso é testando. Não adianta se manter no plano das ideias. No próximo texto dessa série sobre perfeccionismo, vou falar um pouco sobre isso.

 

 

Eu vou ficar muito feliz em saber sua opinião sobre esse texto, como ele ressoou para você. Fique à vontade para escrever nos comentários aqui embaixo, me enviar um e-mail (contato abaixo)  ou uma mensagem inbox pelas redes sociais.

 

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